quarta-feira, 15 de maio de 2013

Norbert Elias - Texto Para os alunos do 2º ano da Escola Gabriel Pozzi para atividade da Disciplina de Sociologia sob Orientação do Prof. Claudio Correa


ELIAS, Norbert; e SCOTSON, John. L.; Os  estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma comunidade;
Tradução Vera Ribeiro; tradução do posfácio à edição alemã,   Pedro Süssekind – Rio de Janeiro: Jorge Zahar - Editor, 2000, 224 p.
 Silvana Aparecida Pinter Chaves - Departamento de Educação — Instituto de Biociências Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP
Rio Claro – São Paulo - pinter_chaves@yahoo.com.br

Norbert Elias nasceu em 1897 na cidade de Breslau, hoje Wroclaw, na Polônia. 
A sua família era de “judeus alemães,” como  tantas outras que viviam em um mundo social atravessado pela tensão entre o sentido de inclusão e o de exclusão, uma vez que os judeus ocupavam o lugar de minoria estigmatizada naquela figuração social que era a nação alemã na época. 
Em pesquisa realizada durante aproximadamente três anos, na pequena comunidade industrial urbana, de nome fictício de Winston Parva, no sul da Inglaterra, do século XX, Elias e Scotson mostram uma clara divisão, em seu interior, entre um grupo de residentes estabelecido desde longa data num bairro relativamente antigo e, ao redor dele, duas povoações formadas em época mais recente, cujos moradores eram tratados pelo grupo dos estabelecidos como outsiders.
A pesquisa começou, como muitas outras, porque moradores de um desses bairros tinham um índice de delinqüência sistematicamente mais elevado que o dos outros. 
É um livro de pesquisa que combina dados de fontes diferentes: estatísticas oficiais, relatórios governamentais, documentos jurídicos e jornalísticos, entrevistas e, principalmente, de permanente observação. 
As diversas fontes proporcionam compreender os laços de interdependência que unem, separam e classificam segundo a sua importância, os indivíduos e grupos sociais, em relação de poder constante.
 O que Elias e Scotson nos mostram nesse livro é a relação  de poder entre dois grupos de moradores que não se diferenciam quanto a seu tipo de ocupação, religião, educação, nacionalidade, classe social, cor, raça, mas sim no que se refere ao tempo em que residiam na comunidade. 
O grupo estabelecido os estigmatizava como pessoas de valor inferior, tratavam os moradores novos como indivíduos que não se inseriam no grupo, como forasteiros, “os de fora.” 
Essa comunidade fazia parte de uma área de construções  suburbanas nos arredores de uma grande e próspera cidade industrial  da região central da Inglaterra.
 Uma ferrovia separava-a de outras  partes desse conjunto que proliferava; uma ponte sobre a via férrea  era o único elo com Winston Magna e com o restante de Winston. Ali viviam menos de 5.000 habitantes, que formavam uma  comunidade bastante coesa, com suas próprias fábricas, igrejas, lojas  e clubes.
A área se compunha de três bairros, conhecidos e reconhecidos como diferentes pelos próprios moradores. A Zona 1  era o que se costuma chamar de área residencial de classe média. As Zonas 2 e 3 eram áreas operárias, uma das quais, a Zona 2, abrigava quase todas as fábricas locais. As Zonas 2 e 3 eram divididas em duas áreas que eram denominadas de um lado, o grupo residente na aldeia, que era povoado pelos moradores já havia três gerações e devido a esse fator se julgava senhor de direitos especiais; e de outro lado, o grupo dos moradores do loteamento que era visto pelo outro grupo como inferiores, somente pelo fato de serem moradores há menos tempo e devido a esse fator, eram tratados como outsiders.
 O grupo dos moradores da aldeia vêem-se como pessoas melhores, dotadas de uma relação grupal sólida, de uma virtude específica que é compartilhada por todos os seus membros, enquanto que o grupo de moradores do loteamento não tinham esse tipo de relação grupal e isso os tornavam isolados e inferiores com relação ao outro grupo. 
O único contato que havia entre eles era o exigido por suas atividades profissionais.
Devido a essa relação sólida, o grupo dos estabelecidos  reservava para as pessoas de sua relação grupal, cargos importantes como o conselho, a escola ou ao clube e deles excluíam os moradores da outra área. 
Assim, a exclusão e a estigmatização dos outsiders pelo grupo estabelecido afirmava sua superioridade e sua relação de poder, pois havia uma acentuada coesão e integração no grupo o que não se via no grupo dos moradores do loteamento.
 O grupo dos antigos residentes, famílias cujos membros se conheciam havia muito tempo estabeleciam para si um estilo próprio e um conjunto de normas e se orgulhavam disso.
 Apesar de Winston Parva ser uma comunidade relativamente homogênea segundo religião, renda, educação, ocupação, língua, nacionalidade, sua população estava dividida de um lado pelo grupo que residia no bairro denominado “aldeia” onde os moradores eram aqueles que exerciam o poder, pois, eram moradores antigos do local e se denominavam por estabelecidos e perfaziam 80% da população a qual havia 80 anos residia no local, e a do grupo que residia no bairro denominado por “loteamento” e eram estigmatizados por serem considerados estrangeiros, pois moravam apenas há 20 anos no local, perfazendo 25% da população. Devido a essa mudança temporal na comunidade que os mesmos eram excluídos do convívio com os moradores da aldeia. 
Eram trabalhadores braçais, operários não-especializados e os outsiders eram desconsiderados e marginalizados pelo simples fato de residirem na comunidade há menos tempo. Elias nos mostra a relação de poder entre esses dois grupos e suas particularidades quanto a esse poder. 
O fator tempo de residência é o determinante de poder entre os mais antigos perante aos mais novos moradores, e essa relação de tempo é fator gerador para a estigmatização dos moradores mais novos da comunidade, e aqueles indivíduos que não faziam parte desse grupo eram simplesmente excluídos.
 O trecho a seguir exemplifica bem essa temporalidade e detenção de poder por parte dos moradores da aldeia As pessoas, na comunidade dos estabelecidos, utilizavam contra os moradores do loteamento a “fofoca”, como marco de estigmatização. 
Os estabelecidos denegriam a imagem do outro grupo e isso lhes davam status, facultando-lhes exercerem certo centralismo na propagação de regras, valores, normas e verdades (absolutas, estáticas, cristalizadas). Não havia os mesmos laços de parentesco nas famílias do loteamento e isso contribuía para o isolamento das mesmas. As operárias com filhos pequenos enfrentavam grandes dificuldades para encontrar quem cuidasse de seus filhos quando saíam para  trabalhar. Em Winston Parva, como em outras áreas industriais, tinha a comunidade jovem que também era marcada pelas diferenças entre as comunidades e, em se tratando das três Zonas, alguns jovens que eram delinqüentes ou quase delinqüentes em sua maioria provinham da Zona 3, alguns da Zona 2 e nenhum da Zona 1.
 Como em toda parte, só uma minoria desses jovens era levada aos tribunais. Na Zona 3, 17 dos 19 delinqüentes juvenis foram levados aos tribunais por crimes contra a pessoa ou propriedade. Para um distrito de suas dimensões, os recursos que Winston Parva oferecia aos jovens eram muito precários. 
O cinema servia de ponto de encontro para multidões de adolescentes, que eram particularmente afetados pelo fato de sua sociedade não lhes oferecer papéis claramente definidos.
Para Elias, muitos desses jovens, chamados ‘delinqüentes”,  pareciam esbarrar nos muros da prisão invisível em que viviam, gastando suas energias na tarefa de chatear e provocar todos aqueles que lhe davam a vaga sensação de serem carcereiros, numa tentativa de escapar ou de provar a si mesmos que a opressão era real.

Esses mesmos autores relatam a questão da anomia, que refere-se a “um estado de ausência, de falta de regras e de ordem, de não estrutura; possuía o sentido que eles chamaram normativo de um julgamento moral, associado aos mesmos valores que, em Winston Parva, serviam para estigmatizar os outsiders, devido ao fato dos moradores do loteamento aceitarem sem se impor a condição de excluídos pelos moradores da aldeia..
As categorias, estabelecidos e outsiders, se definem na relação que as nega e que as constitui como identidades sociais.
 Os indivíduos que fazem parte dessas comunidades estão ao mesmo tempo unidos, mas também separados por uma relação de interdependência grupal. 
Pode-se constatar nesse livro que a superioridade social e moral, o pertencimento e a exclusão são elementos da sociedade dos indivíduos e que entre os estabelecidos e os outsiders, na esfera social, exemplificam as relações de poder
.Como se pôde observar, os autores conferem a este livro uma atualidade, sugerindo caminhos para analisar, criticar e reformular algumas questões contemporâneas em torno de expressões como exclusão social e violência social.