terça-feira, 10 de julho de 2012

O Valor da Música


Esse artigo é escrito por uma menina, chamada Emily White, que deve ter seus 20 e poucos anos.
Nele, ela fala sobre como nunca comprou música.
Como não sente falta da experiência de comprar música como um artigo físico, e de como nunca pensou no assunto de forma prática.
E diz que a única forma física de compra de música sempre se deu por meio de ingressos de shows e camisetas das bandas que gosta.
Bem, Emily termina o artigo dizendo que percebeu há pouco tempo que não é possível que os artistas todos se banquem somente com vendas de ingressos e camisetas, mas que sinceramente não a vê, e nem seus amigos e conhecidos, pagando por música nunca mais.
E termina dizendo que tudo o que quer é um serviço pago mensalmente que dê a ela o acesso a toda música do mundo, sem complicações, sem que ela precise se preocupar com os artistas, gravadoras… e que todos sejam remunerados.
“All I require is the ability to listen to what I want, when I want and how I want it. Is that too much to ask?“, ela finaliza.
Lendo o artigo, e a essa frase final, ficam duas sensações: primeiro, a música não tem mais valor concreto, ponto.
E segundo, estamos querendo demais, não estamos?!
A valoração real da música ser praticamente zero não é mais novidade.
As pessoas da geração Y (nascidas entre 1982 e 1993) e mais jovens não entendem o que é pagar por uma música.
Não a vêem como um produto, que tem um valor específico, que custa para ser feito, e que deve ter um preço; assim como um café, uma camiseta, um carro ou uma consulta médica.
Parte disso se deve ao fato do meio físico ter sido suplantado por arquivos digitais de fácil acesso.
É um fato que o ser humano ainda tem uma grande dificuldade ade estabelecer uma percepção de valor com algo “virtual”. Essa questão do virtual é ainda muito nova, e não conseguimos estabelecer uma percepção de que o virtual é, na verdade, concreto também: uma música é uma música, não importa o meio.
Ela tem o mesmo valor estando em um CD, um Vinil ou em MP3. Assim como um livro, uma revista ou um filme.

A outra parte de culpa em percebermos valor na música vem das próprias gravadoras e artistas, que demoraram demais para se adaptar a uma nova realidade: as pessoas utilizam-se da internet para ter acesso às canções, e não há nada que façamos que vai mudar o fato.
Se logo de cara houvesse surgido um meio legal e simples de vender música on-line, de forma segura e honesta; talvez (eu disse “talvez”) a história teria sido um pouco diferente.
Isso pode estar mudando aos poucos, com o real crescimento de lojas como iTunes e Amazon nas partes musicais, mas ainda está muito longe de ser o ideal.
A segunda sensação, de que estamos querendo demais, vem do fato de que……. sim, estamos querendo demais!
Ora, tudo o que Emily quer (e ela representa boa parte dos jovens do mundo) é “poder ouvir o que ela quiser, quando ela quiser e como ela quiser”.
A internet é uma benção, algo extraordinário; mas também uma grande “avó”, que nos mimou e deu tudo o que quisemos o tempo todo, sem pensar em nada mais.
Não temos à disposição todos os carros do mundo, quando quisermos dirigi-los.
Ou então todos os tênis do mundo, para quando quisermos usa-los.
Porquê com a música tem de ser assim??
Qual o problema em escolhermos?!
Escolhas são boas, nos ensinam e fazem amadurecer.
Quero dizer, a internet nos ensinou mal.
É um fato que quando escolhemos uma coisa, deixamos outras pra trás.
Se eu gasto meu dinheiro com uma música, estou deixando de usar esse mesmo dinheiro para comprar outras.
Isso é normal, com tudo na vida.
É o trade off , algo que estudamos em economia e que nos ensina que sempre que escolhemos algo, estamos deixando de escolher outro.
E não há mal nenhum nisso.
E, então voltamos ao começo do artigo, em que cito o comentário de meu amigo Dan: a música, por esses dois fatos, virou um mero detalhe.
Artistas não ganham mais dinheiro com ela (em sua grande maioria).
Ganham com outras coisas, que são obrigados a fazer pois o trabalho deles (que é a música, a criação, etc) não os paga mais.
A música não é mais um fim, e sim um meio.
E, dado isso, não podemos ficar reclamando que a qualidade musical caiu, que os artistas não são tão bons e criativos quanto antigamente, e que os grandes momentos da música se foram.
Ora, para alguém criar algo bom, demanda esforço e trabalho dedicado.
Demanda conseguir viver para aquilo.
Demanda pensar no assunto o quanto puder, respirar e transpirar.
Se antigamente as pessoas criavam coisas incríveis, muitas vezes, era, em parte, porquê viviam para aquilo. Respiravam, comiam, transpiravam música.
O album Exile on Main Street, dos The Rolling Stones, considerado uma das obras primas da carreira, foi feito após um internato na casa de Keith Richards, no sul da França, onde montaram um estúdio móvel, e ficaram vivendo de sexo, drogas e rock’n'roll.
Bem, pra acabar, se hoje nào pagamos mais por música, se o artista não ganha mais para criar, estamos condenados à um nivelamento por baixo da criação musical (caso não haja uma mudança de cenário).
O fato da democratização das gravações ter trazido à tona milhões de artistas que não poderiam gravar “à moda antiga”, não suplanta o fato de que a música, como qualquer outro trabalho, demanda ser feito de modo exclusivo para atingir sua excelência.
E se tudo o que queremos é “the ability to listen to what I want, when I want and how I want it”, então estamos condenando a música. Yes, that’s asking too much.