quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O LIXO SEGUNDO RUBEN ALVES

Minhas netas: vocês já pensaram em brincar com lixo? Eu nunca havia pensado! Lixo é coisa suja, nojenta, não é coisa com que se brinque! Pois eu me levantei hoje com vontade de brincar com o lixo. Isso mesmo! Doideira? Ao final vocês verão que doido não sou eu... Brinquei assim: fui andando pela casa, prestando atenção em todos os objetos e anotando num caderno aqueles que vão se transformar em lixo. Lixo é tudo aquilo que não serve para nada, que não é para ser guardado, que deve ser jogado fora. Na minha casa há muitos objetos que nunca jogarei fora. Dependendo de mim nunca virarão lixo: meus livros, meus cds, meus quadros, fotografias de pessoas queridas, objetos de arte, objetos que pertenceram a pessoas que amo, como aquelas duas taças de cristal, uma vermelha, a outra azul, que foram da minha mãe... Outros objetos, entretanto, têm um destino certo: o saco de lixo. Comecei no banheiro: escovas de dente, aparelhos de barbear, tubos de pasta de dente, fio dental, embalagens plásticas de shampoos, de cremes, de remédios, papel higiênico. Continuei a fazer minha lista no quarto: lâmpadas, pilhas dos mais variados tipos, tênis, sapatos, roupas. Na cozinha a lista ficou enorme: embalagens plásticas dos incontáveis produtos de limpeza, embalagens de adoçantes, de leite, de sucos, de catchup, arroz, fubá, doritos, sucrilhos, aveia, macarrão, maizena, nescau, margarina, manteiga, danone, de sopas prontas, garrafas plásticas de água mineral, de coca-cola, de guaraná, de vinagre, latas de refrigerantes, de cerveja, de azeite, de óleo, de sardinha, de atum, de massa de tomate, de molhos, garrafas de vidro das mais variadas formas, montes de sacos de papel, de sacos de plástico, de jornais e os próprios sacos plásticos onde se guarda o lixo. No escritório: esferográficas, papéis usados. Na sala: garrafas de Jack Daniels, de vinhos, de licores, guardanapos. Na garagem: os pneus do carro e o próprio carro, que vai ficar velho e será vendido para um ferro-velho...Lixo a gente põe nos sacos de lixo, vêm os lixeiros, põem os sacos de lixo em caminhões, e o lixo desaparece da nossa vista. Desaparece da nossa vista mas não desaparece de verdade porque nada no mundo desaparece. O lixo vai para um outro lugar, longe dos olhos. E a montanha vai crescendo, crescendo, sem parar. Até quando as montanhas de lixo poderão crescer?Imagine, agora, que milhões ou mesmo bilhões de pessoas estão produzindo lixo sem parar e livrando-se dele por meio de sacos de lixo. Faz uns dias tive a alegria rara de ouvir um homem inteligente e tranquilo dando uma entrevista na televisão. Seu nome é Washington Novaes, jornalista. Falou sobre o problema do lixo. Disse que os cálculos já haviam sido feitos: o lixo que se produz diariamente no mundo corresponde a um quilo de lixo por pessoa. Isso, evidentemente, é uma média. Se você não sabe o que é “média“ pergunte ao seu pai ou ao seu professor. O fato é que há pessoas que não produzem lixo algum, enquanto há outras que produzem muitos quilos de lixo. Você quer saber quanto de lixo é produzido diariamente no mundo? Faça o cálculo. Quantos são os habitantes do mundo? Cada um deles produzindo um quilo de lixo... Divida por mil: você terá o resultado em toneladas. Peça a um professor – preferencialmente o professor de ciências – para fazer um cálculo do tamanho da montanha de lixo produzido diariamente. Agora, multiplique por 365: você terá o tamanho da montanha de lixo que é anualmente produzida pelo progresso. Sim, sim! Pelo progresso. Porque é o progresso que produz lixo. Todos os objetos que, no meu apartamento, vão se transformar em lixo, são produzidos pelo progresso. Sem o progresso eles não existiriam. O progresso

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