quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A SOCIOLOGIA DE MAX e DURKHEIM - Ética protestante e espírito do capitalismo’ e a pesquisa quantitativa

FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 725-744, set./out. 2008. 725


Resumo: Max Weber e Émile Durkheim são dois dos mais importantes

autores clássicos das ciências sociais. A influência de suas

teorias e abordagens metodológicas ainda é percebida em muitos

autores atualmente. Nossa proposta é apresentar preliminarmente as

contribuições dos autores para as pesquisas qualitativas e quantitativas,

para tal discorremos sobre a pesquisa qualitativa de Weber na

obra ‘Ética protestante e espírito do capitalismo’ e a pesquisa quantitativa

de Durkheim em ‘O suicídio: estudo sociológico’.

Palavras-chave: Max Weber, Émile Durkheim, ética protestante,

suicídio, pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa

Alessandro André Leme



Max Weber, Karl Marx e Émile Durkheim


A SOCIOLOGIA DE MAX

WEBER E ÉMILE DURKHEIM:

QUESTÕES PRELIMINARES


O trabalho que aqui se apresenta tem como intuito a promoção de um

debate e ao mesmo tempo a apresentação de dois pensadores/cientistas

de suma importância para a criação, a consolidação e o desenvolvimento

das ciências sociais. Trata-se do sociólogo e filósofo francês Émile Durkheim

(1858-1917) e do sociólogo, filósofo e economista alemão Max Weber (1864-

1920).

O primeiro, marcadamente, um expoente teórico-metodológico nas

ciências sociais e de forte influência na pesquisa quantitativa. O segundo,

também um expoente teórico-metodológico nas ciências sociais, porém com

forte influência na pesquisa qualitativa.

Centrado nesses dois autores, este trabalho será composto por quatro

partes, a saber: a primeira apresentando uma visão geral dos autores;

a segunda focando estritamente O suicídio e os fatores cósmicos do livro

O suicídio (estudo sociológico), de Durkheim, a fim de identificar no texto

ACERCA DOS MÉTODOS

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qual a lógica da verificação das hipóteses e quais os problemas apresentados

pelo autor.

Na terceira parte será realizado um contraponto entre as Regras do

método sociológico e O suicídio, ambos de Durkheim. Nesta parte, far-seá

necessário um maior detalhamento de como Durkheim elabora sua teoria

e metodologia e como ele as aplica em um estudo de caso, verificando não

só a eficiência do método, mas também o aperfeiçoando, dado que O suicídio

é uma obra a posteriori.

Na última parte, por sua vez, será realizada uma comparação entre a

pesquisa quantitativa de Durkheim (O suicídio) e a pesquisa qualitativa de

Weber (A ética protestante e o espírito do capitalismo). Tal comparação visa

evidenciar os esforços de ambos os autores em elaborarem grandes

metodologias para o entendimento da sociedade e das relações dos indivíduos

que a compõem. Cabe salientar que não se trata de uma comparação

no sentido de hierarquização de quem é o melhor, mas sim de uma exploração

das riquezas que tanto Durkheim quanto Weber deixaram para as

ciências sociais.

As ciências sociais, desde o seu surgimento, em meados do século XIX,

é marcada por um embate de teorias centradas na ‘estrutura’ e por teorias centradas

na ‘ação’. Historicamente, verificamos, no que tange às ciências sociais,

que esse embate se apresenta marcante nos trabalhos científicos dos

clássicos (Marx, Weber e Durkheim). Embora não possamos definir tão

linearmente os autores em proposições centradas na estrutura e proposições

centradas na ação, é evidente a predominância de um autor em um ou em

outro enfoque. No caso dos autores clássicos, com a devida ressalva já exposta,

pode-se afirmar que Weber estaria apoiado numa teoria da ação, ao passo

que Marx e Durkheim estariam apoiados numa teoria da estrutura, embora

diferenciadas entre si.

Por outro lado, também é inerente às Ciências Sociais a elaboração

de métodos de pesquisas qualitativas e quantitativas e é justamente esta última

proposição que será explorada neste trabalho ao analisar, descrever e relacionar

Durkheim e Weber. O primeiro por sua pesquisa quantitativa e o segundo,

por sua pesquisa qualitativa.

QUESTÕES GERAIS ACERCA DOS AUTORES

Antes mesmo de entrarmos propriamente nas questões propostas, cabe

uma apresentação geral sobre os autores citados. Durkheim é um teórico

em que se pode evidenciar, sem muita dificuldade, sua predominância na

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noção de estrutura, porém, um tanto diferenciado da de Marx. Para

Durkheim, o indivíduo é um ser social, mas não organizado em classes sociais,

como Marx afirmara.

Pode-se identificar a noção de estrutura em Durkheim pela idéia de

consciência coletiva e representação coletiva, ambos conceitos-chave para o

entendimento da teoria que o autor elaborou como algo específico ao olhar

da sociologia nascente, apresentando as especificidades e as justificando como

forma de validar cientificamente este novo tipo de saber que está propondo

para a explicação e compreensão da sociedade (a sociologia), em contraposição

ao olhar da psicologia, da filosofia ou da economia, por exemplo.

Ao passo que a consciência coletiva vincula-se à moral, ou seja, à

educação e às inúmeras formas de socialização dos homens, as representações

coletivas se vinculam à religião, ou seja, ao sagrado e profano, enfim,

às representações e concepções de mundo.

Tanto a representação coletiva como a consciência coletiva, como

fatores estruturais da sociedade, não são compostos pela soma das partes.

A sociedade é sempre maior que a soma das partes, ou seja, não é a soma das

representações individuais que redundam na representação coletiva, mas sim

as representações individuais que são expressões objetivadas das representações

coletivas. Nesse sentido, a objetivação da sociedade em Durkheim passa

por afirmar que os fatos sociais são exteriores e coercitivos aos indivíduos,

ou seja, as ações individuais seriam o reflexo da internalização da consciência

coletiva de um determinado grupo social.

Giddens (1994 e 1998) salienta que não há uma única consciência

coletiva, diversas sociedades são portadoras de diferentes consciências coletivas,

que, por sua vez engendram algumas diferenças nas organizações

sociais, nas formas de socialização dos homens.

Durkheim também dá importância à divisão do trabalho, porém,

dentro de uma perspectiva diferenciada da de Marx, ou seja, Durkheim parte

da idéia de que a divisão do trabalho engendra a solidariedade. Os indivíduos

compreendem o significado da divisão do trabalho como uma especialização

que quando vista de forma integrada é fundamental para a solidariedade

orgânica (por consenso), para reprodução da ordem social. A única exceção

a essa solidariedade seria a divisão forçada do trabalho enquanto um fato

anômico, trazendo sérios prejuízos à coesão social.

É importante salientar que Durkheim (1983b) apresenta suas contribuições

à sociologia a partir de sua tese de doutoramento sobre a divisão

social do trabalho (De la division du travail social), publicada em 1893,

onde demonstra que o desenvolvimento dos indivíduos tem estrita ligação

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e dependência com o desenvolvimento da sociedade. Esta foi sua primeira

grande obra.

Em 1894, com As regras do método sociológico (Règles de la méthode

sociologique), Durkheim elabora um método em defesa dos princípios

iniciados na sua tese de doutoramento, quais sejam: o entendimento dos

fenômenos sociais como fatos sociais1.

Outra obra importante de Durkheim, O suicídio: um estudo sociológico

(Le Suicide, étude de sociologie) de 1897, põe à prova sua

metodologia ao realizar uma ampla pesquisa quantitativa sobre o suicídio,

provando que o suicídio, ou as causas que levam alguém a querer se matar

(seja de forma positiva ou negativa), é de natureza sociológica e não individual.

Por fim, e como livro considerado da maturidade da Durkheim, As

formas elementares da vida religiosa (Les Formes élémentaires de la vie

religieuse), de 1912, é talvez o seu mais importante livro. Nessa obra,

Durkheim elabora uma teoria geral da religião partindo de análises centradas

nas instituições religiosas mais simples e mais primitivas. Uma das idéias

centrais do autor é a de fundamentar uma teoria das religiões superiores no

estudo das formas religiosas primitivas, onde o totemismo acaba por revelar

a essência da religião. A partir do estudo do totemismo, Durkheim prova

que é possível apreender a essência de um dado fenômeno social observando

suas formas mais elementares.

Max Weber, por sua vez, apresenta uma produção intelectual/científica

voltada para análises e interpretações predominantemente centradas

na ação. Nas sociedades capitalistas as ações dos indivíduos são orientadas/

organizadas pelo cálculo racional e pela divisão do trabalho na administração

burocrática do Estado.

Weber pressupõe que as ações dos indivíduos são orientadas por uma

lógica racional (orientada visando um fim, ou por valores). Porém, a

racionalidade legal não é a única forma de organização social, tendo também

o carisma e a tradição que influenciam no tipo de poder, como tipos

puros de dominação ao lado do poder legal.

A racionalidade centrada no poder legal é a mais importante no capitalismo

dado a iminente tendência à burocratização da sociedade em suas

diversas esferas – sociais, políticas, econômicas, militares, religiosas, entre

outras. Perante essa tendência à burocratização, a existência de poderes

centrados no carisma ou na tradição pode ser prejudicial à continuidade de

novas lideranças aptas a atuarem na divisão burocrática da administração

estatal. Weber nos evidencia este fato ao descrever e analisar historicamente

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o legado de Bismark, ou seja, as conseqüências da saída/queda de um líder

carismático do poder e o ‘vácuo’ político deixado pelo mesmo.

Weber e Durkheim elaboraram seus trabalhos em circunstâncias

políticas, econômicas, morais e sociais diferentes que caracterizavam a Alemanha

e a França na segunda metade do século XIX e começo do século XX

na tentativa de superar tanto o conservadorismo romântico (da filosofia

alemã), quanto o utilitarismo da economia clássica.

DURKHEIM CONSTRUINDO O PROBLEMA: A LÓGICA

DE VERIFICAÇÃO DAS HIPÓTESES NO SUICÍDIO E OS FATORES

CÓSMICOS

Não há pois nada mais urgente que procurar libertar dele (preconceito)

definitivamente a nossa ciência; é esse o objectivo principal dos

nossos esforços. (Durkheim)

A verificação de como Durkheim constrói seu problema acerca das

questões relativas ao suicídio tem como ponto de partida um pressuposto

lógico de verificação das hipóteses. A partir de um exercício analítico-descritivo

do capítulo terceiro, O Suicídio e os Fatores Cósmicos, do livro

O suicídio: estudo sociológico, demonstra sua riqueza e rigor metodológico

no desenvolvimento de uma pesquisa quantitativa.

A pesquisa de Durkheim contou com um recorte geográfico que

envolveu vários países da Europa e suas respectivas taxas de suicídios, dentre

os países trabalhados estão a França, a Prússia, a Inglaterra, a Itália, a

Dinamarca, a Áustria, entre outros.

Para Durkheim, o desenvolvimento de uma pesquisa de característica

eminentemente sociológica se dá num primeiro momento pela relação

contrastiva do fenômeno social (fato social) com os fenômenos psíquicos

ou biológicos/químicos. É nesta diferenciação e ao mesmo tempo de definição

de qual o objeto de estudo da sociologia que o autor começa relacionando

no capítulo supra.

A importância de delinear claramente qual seria o objeto de estudo

da sociologia em contraste com o objeto da psicologia, da biologia e da

própria química é fundamental para Durkheim.

O fenômeno a ser observado e tratado como social para Durkheim

(em sua sociologia) é o Suicídio, porém, o caminho metodológico realizado

para defini-lo como um fato social partiu da refutação do suicídio como

um fenômeno psíquico e/ou orgânico.

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Porém, a refutação de causas psíquicas e orgânicas do suicídio exigiu

do autor uma pesquisa quantitativa, sendo necessário para o seu desenvolvimento

à centralização nas taxas dos suicídios e não no suicídio em si, ou

seja, foi preciso quantificá-lo, mensurá-lo para poder inferí-lo como um fato

social. Durkheim parte de um entendimento que é só explicando um determinado

fenômeno que se poderá compreendê-lo, daí a importância de se

realizar uma pesquisa quantitativa para o autor.

Primeiramente, foi refutada a predisposição individual como causadora

determinante do suicídio, ou seja, refutou-se qualquer hipótese ou tentativa de

evidenciar o suicídio como um fenômeno estritamente ligado às condições

psíquicas dos indivíduos. Com isto, não só se eliminou o determinante individual

do suicídio como também o tirou da esfera individual de causas.

Uma vez tendo eliminado os fatores individuais, o autor insere as

condições materiais ou cósmicas como possíveis causadoras do suicídio.

Assentando-se no argumento de que assim como muitas doenças são manifestadas

em certas condições materiais e não em outras, o suicídio também

poderia estar associado de alguma forma a essas diferenciações cósmicas

(materiais/biológicas).

Caso tal argumento centrado nos fatores cósmicos se verificasse, não

se poderia atribuir o suicídio como um fenômeno social, mas sim natural

por evidenciar que alguns indivíduos seriam naturalmente impulsionados,

seja pelo ambiente natural ou por certas características bioquímicas inerentes

a alguns indivíduos.

De todo o conjunto de fatores e causas ligadas ao meio material,

somente o clima e a temperatura sazonal aparentemente teriam alguma

influência sobre as taxas dos suicídios, porém, em sua pesquisa Durkheim

também acaba por refutá-las.

O clima2 como causa do suicídio é rapidamente refutado por Durkheim,

para o autor ele em nada influencia nas taxas de suicídio. Nesse sentido, há desde

o início uma contraposição entre o autor supra e a escola italiana que explicava

as taxas de suicídio pelas variações temporais. Na pesquisa de Durkheim, não

se verificou uma relação entre as taxas de suicídio e as variações temporais, ou

seja, explicar o suicídio pela incidência do calor não se verifica ao evidenciar que

há vários países quentes que possuem baixas taxas de suicídio.

Outra hipótese contestada foi a de que logo nas primeiras alternâncias

de temperatura (subida) é que haveria aumentos de suicídio. Ou seja, não

se verificou relação nenhuma entre as taxas de suicídio e as alternâncias de

temperatura (o fato de subir ou descer a temperatura não foi relevante para

a correlação das variáveis envolventes3).

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Por outro lado, a relação existente entre a taxa dos suicídios e as variações

da duração dos dias, verificada com a predominância dos suicídios durante o

dia seria explicado pelo fato de que é durante o dia que as relações sociais são

mais intensas. Tal fato é explicado ao se verificar que as maiores taxas de suicídio

se dão nos dias e nas horas onde a atividade social é mais intensa. Nesse sentido,

o suicídio e suas possíveis causas só podem ser explicados pelas causas sociais,

o compreendendo a partir desta relação como um fato social.

Como pode ser observada, a pesquisa de Durkheim sobre o suicídio,

enquanto um aspecto patológico das sociedades modernas revela uma relação

marcante entre o indivíduo e a coletividade, ou seja, está posto implicitamente

pelo autor até que ponto os indivíduos são determinados pela

esfera coletiva. Nesse sentido, a explicação do suicídio como um fenômeno

social, logo objeto de estudo da sociologia é essencial.

Porém, para defini-lo enquanto um fenômeno social, Durkheim criou

uma tipologia para, a partir dela, elaborar uma teoria geral sobre o suicídio.

Para tal, o autor definiu o suicídio como sendo todo caso de morte ocasionado

direta ou indiretamente, seja por atos positivos4 ou negativos5 realizados

pelo próprio indivíduo e que o mesmo sabia a quais resultado chegaria.

Nesse sentido, é necessário considerar o suicídio não somente nos casos

reconhecidos por todos, mas também nos casos de morte voluntária, seja

por honra, glória ou qualquer outra motivação cultural de um determinado

conjunto de indivíduos.

Para concluir, porém, não esgotar o assunto, cabe expor que Durkheim

pretende distinguir o suicídio enquanto um fenômeno individual da taxa

de suicídio enquanto um fenômeno social, sendo assim, o autor explica o

suicídio6 pela sua taxa de incidência. Com isto, a explicação proposta por

Durkheim afasta as explicações psicológicas e suas características psicopatológicas

da compreensão das taxas de suicídio para explicá-la e compreendêla

como social, ou seja, sai das predisposições psicológicas para explicá-las

pelas determinações sociais propostas pelo seu método e não pelo determinismo

em si.

A APLICAÇÃO DO MÉTODO À EXPLICAÇÃO DO SUICÍDIO:

RELAÇÕES E AVANÇOS ENTRE AS REGRAS DO MÉTODO

SOCIOLÓGICO E O SUICÍDIO DE DURKHEIM

Primeiramente, salienta-se que Durkheim em sua trajetória histórica

de contribuições para a formação da sociologia e de seu método distintivo

das demais ciências começa em sua tese de doutorado sobre a divisão

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do trabalho social. Sendo mais bem demarcada na elaboração das Regras do

Método Sociológico, enquanto um método para explicar os fenômenos

sociais.

Já o estudo de Durkheim sobre o suicídio é uma aplicação do método

criado pelo autor e aperfeiçoado até sua obra considerada a mais “madura”,

qual seja As formas elementares da vida religiosa. A seguir, será visto

como o autor aplicou seu método e gradativamente o refinou na elaboração

do suicídio.

Em primeiro lugar, Durkheim apresenta o recorte e o interesse pelo

qual a sociologia deveria se prestar, ou seja, explicar os fenômenos sociais,

para tal feito seria necessário entender estes fenômenos como fato social.

Fato social é toda a maneira de fazer, fixada ou não, susceptível de

exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior: ou então, que é geral

no âmbito de uma dada sociedade tendo, ao mesmo tempo, uma

existência própria, independente das suas manifestações individuais7

(DURKHEIM, 1995, p. 39).

Por sua vez, um fato social possui algumas características distintivas

dos demais fatos, quais sejam: a exterioridade às consciências individuais e

a ação coercitiva que exerce sobre os indivíduos. “Somos, então, vítimas de

uma ilusão que nos faz acreditar termos sidos nós quem elaborou aquilo

que se nos impôs do exterior” (DURKHEIM, 1995, p. 32). Com isto podese

dizer que o fato social é generalizado por ser social, mas não seu inverso.

A partir desta definição primária pode-se afirmar que o suicídio, ou

melhor, as taxas de suicídio são vistas como fato social, logo é um fenômeno

exterior as individualidades e é suscetível de exercer coerção sobre as consciências

individuais. Essa idéia parte de um pressuposto que não seria o

indivíduo quem daria origem ao suicídio, mas esse seria uma manifestação

da sociedade por meio de obrigações implícitas e difusas. Durkheim

exemplifica tal proposição por meio das correntes de opinião, por exemplo,

que podem levar ao casamento, ao suicídio, a uma maior ou menor taxa de

natalidade, entre outros fatos, sendo que ambos são qualificados como estados

da “alma coletiva”.

Porém, Durkheim não ficou apenas na definição do que é um fato

social, ele também se preocupou em verificar quais seriam as formas de

observação dos fatos sociais. Neste requisito a regra fundamental ficou

fundada no tratamento dos fatos sociais enquanto coisas, porque é só evitando

as pré-noções para se ter efetivação na objetividade científica.

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Devemos, portanto, considerar os fenômenos sociais em si mesmos,

desligados dos sujeitos conscientes que deles têm representações; é

preciso estudá-los de fora, como coisas exteriores, porque é deste modo

que se nos apresentam [...] portanto, considerando os fenômenos

sociais como coisas, não faremos mais que conformarmo-nos com a

sua natureza (DURKHEIM, 1995, p. 52-3).

O fenômeno em cuja explicação nos empenhamos, só pode ser imputado

a causas extra-sociais de uma grande generalidade ou a causas

propriamente sociais (DURKHEIM, 1996, p. 19).

Nesse sentido pode-se dizer que há dois preceitos fundamentais presentes

na metodologia de Durkheim. A primeira é a observação dos fatos

sociais como coisas e, a segunda é o reconhecimento da coerção que eles

exercem sobre os indivíduos. Por coisas pode-se entender qualquer realidade

observável do exterior e que cuja natureza não se conhece de imediato.

O suicídio, ou melhor, a taxa de suicídios pode ser um bom exemplo onde

se verificam os dois preceitos expostos acima.

Na aplicação do método proposto por Durkheim à sociologia e evidenciado

na realização da pesquisa sobre as taxas de suicídio, fica evidente

que a explicação sociológica proposta pelo autor consiste no estabelecimento

de ligações causais, ou seja, a relação de um fenômeno como causa de outro

só é possível pela observação e/ou exame dos casos em que os dois fenômenos

estão presentes, para com isto verificar se há dependência entre eles.

Este método comparativo ou método da experiência indireta é por

excelência sociológico, uma vez em que a verificação da ligação entre variáveis

não pode ser feita pelo método da experimentação, porém, o rigor do

método comparativo proposto por Durkheim acaba por suprir a impossibilidade

da experiência.

A correlação dos textos de Durkheim aqui propostas evidencia alguns pontos

essenciais no pensamento do autor que estão contidos em todas suas obras, a saber:

o ponto de partida sempre é a definição do fenômeno; num segundo momento

se refuta as interpretações anteriores acerca do objeto enumerado e, por fim, buscase

a explicação do fenômeno considerado de forma sociológica. É justamente esse

desenvolvimento lógico e metodológico desenvolvido pelo autor que dá originalidade

ao objeto de estudo da sociologia nascente.

As refutações realizadas por Durkheim referem-se geralmente as interpretações

individualistas e as racionalizantes relativas à interpretação da

economia política.

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A PESQUISA QUANTITATIVA DE DURKHEIM EM CONTRASTE

COM A PESQUISA QUALITATIVA DE WEBER: DIÁLOGOS

E CONTRAPOSIÇÕES

Aqui, valemo-nos do Suicídio de Durkheim para explanação de sua

pesquisa quantitativa e sua respectiva aplicação teórico-metodológica sobre o

fenômeno a ser investigado de forma sociológica. Em Weber, nosso ponto de

partida é a Ética protestante e o espírito do capitalismo, isto porque acreditamos

que este livro, resultado de uma pesquisa qualitativa vai nos apresentar

os principais pontos de partida para compreensão do autor, principalmente

para a possibilidade de diálogos e contraposições à Durkheim.

Weber começa seu livro indagando quais seriam os fatores para que

na civilização ocidental e somente nela tivessem aparecido tais fenômenos

culturais, ou seja, quais as peculiaridades da racionalização no Ocidente?

Por que os embriões do capitalismo moderno evoluíram no ocidente e não

em outras partes do mundo?

Para tal, Weber apresenta uma breve caracterização de alguns fatores

históricos dessa racionalidade, ou seja, dos principais aspectos presentes neste

processo histórico, mas também político, social e cultural, a saber:

• o desenvolvimento da ciência com a presença da fundamentação matemática;

• o legado do Renascimento nas artes:

– a abóbada gótica como meio de distribuição de peso e de cobertura de

espaços na forma desejada;

– a introdução na pintura de linhas e perspectiva espacial;

– a imprensa jornalística e periódica.

• a ciência como forma sistemática e realizada por especialistas treinados

(institucionalização da ciência);

• a organização do Estado estamental com a composição de funcionários

especialmente treinados para funções específicas (processo de burocratização);

• o surgimento do conceito de cidadão, de burguesia e de proletariado

como classe trabalhadora livre e institucionalizada.

Por outro lado, o autor estabelece que a ânsia pelo lucro em si não

tem nada a ver com o capitalismo, ou seja, não é uma relação causal (causaefeito).

Este impulso existe entre garçons, prostitutas, médicos, cachaceiros

e etc. desde que haja possibilidades objetivas para que isto venha a ocorrer.

Além do mais, as diversas formas de troca, de obtenção de ganhos já existiam

no mundo antes da moderna civilização ocidental. Porém, a organização

capitalista racional assentada no trabalho livre é uma particularidade do ocidente.

FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 725-744, set./out. 2008. 735

A organização industrial racional orientada para um mercado real e

não para oportunidades políticas ou especulativas, é peculiaridade do capitalismo

ocidental. Sendo que a empresa capitalista contou com duas condições

fundamentais para realizar-se enquanto empreendimento diferenciado

e específico no tempo e no espaço:

• a separação da empresa da economia doméstica;

• a criação de uma contabilidade racional (o cálculo exato só é possível no

plano do trabalho livre).

Já a criação do conceito de cidadão, burguesia e proletariado enquanto

classe só passa a existir com a institucionalização e divisão do trabalho gerada

pelo processo de especialização e, por novas formas de organização da produção

de mercadorias na nascente sociedade capitalista. Este moderno capitalismo

racional se baseia nos meios técnicos da produção, num sistema legal

e numa administração orientada por regras formais (processo de burocratização

do mundo do trabalho e de impessoalização das relações sociais).

Mediante tais caracterizações e exposições, Weber começa a problematizar

seu objeto de estudo a fim de buscar uma compreensão significativa para

o problema da construção de um determinado ethos capitalista no ocidente

e suas possíveis relações com fatores que lhe deram sentido e motivação.

O primeiro problema apresentado visava compreender o porquê os

líderes do mundo dos negócios e proprietários do capital e os cargos de níveis

mais elevados eram predominantemente ocupados por protestantes (variável

ocupacional)?

Este problema pode num primeiro momento ser explicado de forma

histórica, ou seja, num passado longínquo a filiação religiosa não seria uma

causa das condições econômicas, mas aparece como resultante delas – condições

econômicas causariam o tipo de filiação religiosa centrada no protestantismo.

A posse econômica envolve dois fatores:

• posse prévia de capital (herdada);

• grau de escolaridade (educação, conhecimento sistemático).

Tanto a posse prévia de capital, como o grau de escolaridade podem

ser herdados e/ou facilitados por meio de riqueza ou, pelo menos, por meio

de um bem estar material, por exemplo: das partes ou grupos mais desenvolvidos

economicamente do antigo império, foram justamente às cidades

mais ricas que aderiram ao protestantismo no século XVI.

O segundo problema parte do primeiro, ou seja, perante esta primeira

construção surge outra indagação, qual seja: Porque razão as regiões de

maior desenvolvimento econômico foram ao mesmo tempo favoráveis a uma

revolução na Igreja?

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As reformas protestantes não significaram à eliminação do controle

da igreja sobre a vida cotidiana, mas sim, na substituição do controle vigente

por uma nova forma, ou seja, foi à substituição de uma forma muito tênue

por um estilo mais rigoroso de controle sobre o cotidiano.

Ao passo que o domínio da igreja católica “punia o herege e perdoava

o pecador”. O domínio calvinista introduzido no século XVI, em Genebra

e na Escócia, na passagem do século XVI para o XVII em parte dos países

baixos e, no século XVII, na Nova Inglaterra, acabou por determinar um

maior controle e rigor nas condutas dos indivíduos.

Weber também identifica que o tipo predominante de escolaridade

entre protestantes e católicos era diferente, a saber:

• os protestantes se dedicavam (em sua predominância) aos estudos técnicos

de perspectivas em ocupações comerciais e industriais,

• os católicos se dedicavam (em sua predominância) aos estudos humanísticos

e tinham pouco interesse por empregos nas empresas capitalistas.

Outra constatação do autor era que havia uma menor porcentagem

de católicos formados do que protestantes.

Como forma de explicar a pequena proporção dos católicos entre os

trabalhadores especializados, Weber verificou que, no processo histórico de

transição do artesanato para os diaristas, os católicos preferiram ficar como

artesãos (mestres-artesão). Por sua vez, os protestantes preferiram serem diaristas.

Eles (protestantes) eram mais atraídos pelas fábricas onde, por sua

vez, acabavam preenchendo as camadas superiores da mão-de-obra especializada

e as posições administrativas mais elevadas.

O fenômeno acima teria como uma de suas explicações as peculiaridades

mentais e espirituais adquiridas do meio, especialmente as oriundas

do tipo de educação propiciada pela atmosfera religiosa do lar e da família

protestante.

Segundo Weber (2000), os protestantes, seja como maioria ou como

minoria, como governantes ou governados, sempre demonstraram tendência

específica para a racionalidade econômica.

Um terceiro problema posto pelo autor foi o porquê de haver tanta

diferença entre protestantes e católicos. Porque cada religião parte de orientações

diferentes que refletem diretamente nas respectivas condutas pessoais

dos indivíduos?

Ao passo que os católicos preferem a segurança, a não ganância para

garantir a vida eterna (espiritual), os protestantes preferem investir, arriscar

no trabalho, eles são contra o ócio e a luxúria, o que os fazem trabalhar e

aplicar/investir seus lucros.

FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 725-744, set./out. 2008. 737

A partir desta constatação, Weber (2000) estabelece uma relação entre

o protestantismo calvinista como sendo a religião que mais promovia o

desenvolvimento do espírito do capitalismo em diversas regiões do ocidente

(mais que o luteranismo – segundo dados quantitativos).

Por outro lado, o processo de racionalização do tempo, do tempo de

trabalho e do tempo livre no ocidente. Além da racionalização nas relações

de troca, nos investimentos e nos processos de acumulações são alguns dos

principais fatores componentes do espírito do capitalismo.

O espírito do capitalismo é a possibilidade de maximização do ganhar

dinheiro enquanto puder, ou seja, é um caráter ético de máxima orientação

da vida. O dever profissional enquanto vocação é a ética máxima da

cultura capitalista

Nesse sentido, o capitalismo conduz a vida econômica por um processo

de seleção econômica dos mais aptos, porém, esta seleção não deve

ser vista como algo pertinente em um único indivíduo isolado, mas sim

em um modo de vida comum a todo um grupo inteiro. A seleção entendida

enquanto uma forma de estabelecer o domínio, o poder de dominar

os outros.

A questão que se referia à ética capitalista enquanto um estilo normativo

de vida encontrou como principal opositor a tradição. O empreendedor

moderno paga o trabalhador agrícola pelo tempo de produtividade

(quanto mais se produz num determinado tempo mais se ganha). No tradicionalismo

o homem não tem por natureza ganhar cada vez mais dinheiro, ele

prefere ganhar o suficiente para satisfazer suas necessidades tradicionais.

O trabalho como um fim em si mesmo, ou seja, como vocação não

advém de baixos salários, nem de salários elevados, mas sim de um processo

de educação. A superação do tradicionalismo é feita pela educação religiosa,

principalmente pela possibilidade de conexão entre ética capitalista a

fatores religiosos.

A motivação da expansão do capitalismo moderno não é decorrente

das somas volumosas na origem do capital, mas sim, do desenvolvimento

do espírito do capitalismo, ou seja, onde aparece e é capaz de se desenvolver

e, em quais condições? Nesse processo, a presença de uma ética diferente da

presente no tradicionalismo é fundamental para o desenvolvimento do

capitalismo.

Ou seja, o que teria destruído as velhas formas de regulação mental

da vida medieval econômica aliado ao crescente poder do Estado moderno

seria a estrita ligação das condutas econômicas relacionadas com as forças

religiosas (principalmente as de ethos protestante).

738 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 725-744, set./out. 2008.

A economia capitalista individualista e racionalizada com base no

cálculo rigoroso e dirigida para o sucesso econômico é contrastiva com

a precária existência do camponês, com o tradicionalismo do artesão e

com o capitalismo aventureiro oriundo da especulação irracional, ou

seja, a existência de um é a negação do outro.

Nesse sentido o capitalismo pode ser entendido como parte do

desenvolvimento do racionalismo como um todo e, o protestantismo8

seria a medida do desenvolvimento de uma filosofia puramente racional.

Weber não pretende cair num reducionismo segundo o qual o espírito

do capitalismo foi determinado pelas reformas protestantes. Ele

está preocupado em apenas compreender em que medida as influências

religiosas participaram na moldagem qualitativa e na expressão quantitativa

do espírito do capitalismo.

Ou seja, somente depois de se verificar/compreender as correlações

existentes entre o movimento religioso, no sentido de agir sobre o

desenvolvimento da cultura material, é que se poderá avaliar em que

medida os fenômenos culturais contemporâneos se originaram historicamente

em movimentos religiosos.

Perante tal compreensão, Weber (2000) estabelece quais foram os

representantes históricos do protestantismo ascético no ocidente, a saber:

• calvinismo (especialmente no século XVII);

• pietismo;

• metodismo e;

• seitas derivadas do movimento Batista.

Porém, esta distinção não foi tão linear na prática, na história. O metodismo

surge pela primeira vez no século XVIII no seio da Igreja Anglicana

da Inglaterra. Só ulteriormente com seu alastramento pela América é

que se separou da Igreja Anglicana.

O pietismo inicialmente se desenvolveu no seio do movimento

calvinista na Inglaterra e na Holanda e só foi se separando de forma

gradativa até a sua absorção no século XVII pelo luteranismo, sob liderança

de Spencer, conservando-se como um movimento dentro da Igreja

Luterana.

Porém, vai ser no calvinismo que vai surgir à doutrina da predestinação,

ou seja, alguns são os escolhidos, mas ninguém sabe quem esta

entre os escolhidos. Poucos são os escolhidos para as bem-aventuranças

por meio da glória e da majestade de Deus.

FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 725-744, set./out. 2008. 739

• aplicar padrões de justiça terrena aos desígnios de Deus é desprovido

de sentido e é um insulto a Sua Majestade (Deus) (ex: os homens por

intermédios dos padres se redimem com Deus a alcançam a salvação

– vida eterna);

• o homem só fica sabendo dos desígnios de Deus caso o mesmo resolva

revelá-lo;

• o homem não sabe qual é o seu destino individual.

Tudo o que é carne esta separado de Deus e somente a morte eterna

na glorificação de Deus é que os aproxima (Homem-Deus). Apenas uma

parte da humanidade será salva e a outra será condenada, ou seja, o homem

não pode e nem consegue influir sobre seu destino. Seu destino foi

marcado pela liberdade de escolha e agir de Deus.

Este processo marca a ruptura do Pai Celestial do novo testamento

tão humano e compreensivo que perdoava o pecador para a entrada

de um Deus transcendental para além do entendimento humano.

A graça de Deus é tão impossível de ser perdida por aqueles que

ele concedeu, assim como também é inatingível para aqueles que ele

negou. O caminho a ser percorrido era reservado apenas às individualidades

dos próprios homens, nenhum sacerdote poderia ajudar.

A principal diferença entre o catolicismo e o calvinismo consistia na

eliminação da salvação por meio da igreja e dos sacramentos no segundo

(Calvinismo). Por outro lado, a predestinação é a confiança exclusiva em

Deus, ou seja, os eleitos como a igreja invisível de Deus.

O intercâmbio do calvinista com Deus era desenvolvido em um

profundo isolamento espiritual. Para o calvinismo o mundo existe para

a glorificação de Deus e o cristão eleito está no mundo apenas para aumentar

esta glória. O crente religioso pode se sentir como receptáculo

do Espírito Santo ou como instrumento da vontade de Deus.

a)no primeiro caso, a vida religiosa tende para o misticismo (Lutero);

b no segundo caso, a vida tende para a ação ascética (Calvinismo).

Para o calvinismo, as boas obras embora não pudessem salvar, era

um sinal de escolha dos eleitos (salvação pelas obras). Já no catolicismo

há a existência do sacramento da absolvição. O sacerdote como um

mágico que realiza o milagre da transubstanciação é que tinha nas mãos

a chave para a vida eterna.

No calvinismo era requerido dos fies boas obras isoladas além da

própria santificação pela obras. O trabalho como vocação e a noção de

predestinados por meio da realização bem sucedida do trabalho. No

calvinismo o asceticismo é transformado em atividade terrena. O ócio

740 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 725-744, set./out. 2008.

influências sobre a orientação do espírito do capitalismo há a predominância

dos tipos de ação racional. Aliás, a ação racional adquire predominância

na sociedade moderna com a burocratização do Estado capitalista, com o

processo de racionalização e desencantamento do mundo moderno.

Durkheim parte de sua pesquisa quantitativa centrada na explicação

dos fatos sociais presentes nas consciências coletivas ao passo que Weber,

em sua sociologia compreensiva, visa compreender quais as motivações que

orientam as ações dos indivíduos, tendo como um dos principais recursos

metodológicos para tal realização, a classificação já exposta e as tipologias

criadas. Nesse sentido, pode-se afirmar que enquanto que o primeiro

(Durkheim) parte da explicação para se compreender, o segundo (Weber)

partiria da compreensão para depois explicar.

Na elaboração deste método proposto por Weber que fundaria o que

ele mesmo denominou de sociologia compreensiva, quando aplicada a uma

de suas pesquisas sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo, algumas

indagações são evidenciadas, a saber: qual seria a peculiaridade do desenvolvimento

do capitalismo no ocidente e não em outras partes do mundo

(oriente, por exemplo?).

Para começar a responder tal pergunta/indagação, Weber parte do mesmo

princípio que Durkheim, ou seja, começa refutando as hipóteses propostas.

A primeira a ser refutada é a de uma explicação puramente econômica, sendo

essa verificada por Weber como incapaz, por si só, de justificar as particularidades

presentes no desenvolvimento do capitalismo do ocidente.

Num segundo momento, Weber salienta a necessidade de se compreender

qual seria o etos específico dos primeiros empresários capitalistas

europeus para se compreender o porquê este comportamento faltava nas

outras civilizações.

Uma das particularidades presente no ocidente e verificada por Weber

consistiu no ehtos protestante enquanto uma das fontes racionalizadoras

da vida e que contribuiu para o que o autor denomina de espírito do capitalismo.

Weber não pretende com isto estabelecer uma relação causal meramente

mecânica entre o protestantismo e o capitalismo, mas sim,

compreender o quanto o ethos protestante foi racionalizador e contribuiu

com isto para a evolução do capitalismo9 .

Nesse sentido Weber está preocupado em compreender como a ética

protestante em suas motivações psicológicas e morais motivou a formação

do espírito do capitalismo. No desenvolvimento de sua pesquisa, sua maior

preocupação era com a análise do calvinismo do fim do século XVII (e não

os próprios escritos de Calvino que viveu cerca de aproximadamente 150

FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 725-744, set./out. 2008. 741

anos antes). É justamente a partir deste procedimento que a aplicação da

sociologia compreensiva de Weber é utilizada para o entendimento da correlação

da ética protestante com o espírito do capitalismo.

Enquanto Weber visa compreender o desenvolvimento e a evolução

do capitalismo no ocidente por meio das motivações engendradas pela ética

protestante. Durkheim visa explicar a taxa de suicídios enquanto um fenômeno

social, logo exterior e coercitivo aos indivíduos (centrado numa noção

de coletividade) dentro de relações causais bem definidas.

A análise que Weber faz parte da idéia de um tipo ideal de ética protestante

na qual se encontra a noção de predestinação (convicção religiosa)

e a noção do trabalho enquanto vocação.

Na primeira, há a referência de que ninguém saberia quais são os escolhidos,

ou seja, os desígnios de Deus seriam irrevogáveis, sendo tão impossível

perder sua graça uma vez que a tendo ganhado, quando tentar adquiri-la

quando a foi recusada. Esta convicção acaba por eliminar gradativamente a

magia, há um desencantamento do mundo e, por conseguinte, uma racionalização

crescente nas diversas esferas das relações sociais.

Uma vez engendrado o processo de desencantamento do mundo

juntamente com a não declaração explícita de quem seriam os escolhidos

por Deus, o trabalho enquanto vocação surge como uma tentativa de demonstrar,

por meio de sua eficácia social, quais seriam os possíveis predestinados.

Nesse sentido, o trabalho mais eficaz seria uma manifestação da

glória de Deus e um sinal da eleição baseada na vida ascética, ou seja, o êxito

no trabalho confirmaria a vocação pessoal.

Essa conduta ascética contribuiu para a racionalização de toda a

existência relacionada com a vontade de Deus, ou seja, houve uma racionalização

do comportamento dos indivíduos, inclusive no mundo dos negócios.

Entretanto, o êxito no mundo do trabalho não é sinônimo de riqueza

no seu caráter de acumulação para vida ociosa, luxúria ou coisas do tipo,

mas sim como forma de acumulação para o investimento. Quanto mais se

investia, quanto maior produtividade se adquiria no trabalho e, em

contrapartida a recusa ao luxo e ao ócio esteve intimamente ligada a um

novo estilo de vida que influenciou diretamente o espírito do capitalismo.

Por meio da ética protestante foi possível compreender o desenvolvimento

do espírito do capitalismo por causa da nova característica que foi

introduzida ao mundo do trabalho. Ou seja, há uma fundamentação cujas

origens são a moral religiosa que, por sua vez, influencia nos estilos de vida

e trabalho dos indivíduos, refletindo diretamente na forma, no modo de

aplicação e condução dos negócios profanos.

742 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 725-744, set./out. 2008.

Enquanto Weber está preocupado com sua pesquisa qualitativa

em quais motivações estariam orientando as ações dos indivíduos (ética

protestante e espírito do capitalismo) para compreender o porquê das

particularidades do capitalismo no ocidente, Durkheim, em sua pesquisa

quantitativa sobre o suicídio, está preocupado em dar o status ao problema

do suicídio enquanto um objeto de estudo da sociologia. Para tal,

parte da explicação desse fenômeno dentro de condições de variabilidade

(taxa de suicídio) num processo de objetivação do mesmo e remetido

a esfera da consciência coletiva e não as perturbações ou crises psicológicas

dos indivíduos.

CONCLUSÃO

Refletir sobre Durkheim e Weber enquanto fundadores da sociologia

clássica implica em diferenciá-los pelo método, porém não

hierarquizá-los do melhor para o pior. As diferenças metodológicas

verificadas no decorrer deste trabalho e a própria diferença no tipo de

pesquisa pelo qual cada autor optou em realizar (o primeiro a pesquisa

quantitativa e o segundo a pesquisa qualitativa) devem ser encaradas

como modelos consistentes de como se realiza uma pesquisa com coerência

na aplicação do método e clareza nas explicações/compreensões

daí resultadas.

A pesquisa quantitativa de Durkheim sobre o suicídio segue a rigor

sua proposição metodológica de considerar as taxas de suicídios como um

fenômeno social, logo possuidor das características de um fato social (coercitivo

e exterior). O que acaba por explicar o fenômeno supra enquanto

um fenômeno social presente nas consciências coletivas, ou seja, algo a ser

estudado/pesquisado e explicado pela sociologia, ciência que o autor está

fundando.

O mesmo rigor que Durkheim apresenta no desenvolvimento de

sua pesquisa Weber apresenta na elaboração de sua pesquisa qualitativa

que visa à compreensão de quais motivações estariam orientando as ações

dos indivíduos para o desenvolvimento singular do espírito do capitalismo

no ocidente e não em outras civilizações. Para tal, Weber cria algumas

classificações e tipologias para melhor compreender esta relação múlticausal

de motivações orientando determinadas ações, que por sua vez,

acabam por definir um novo tipo de estilos de vida e, por conseguinte,

um novo padrão de relações sociais mais racionalizadas, ocasionando um

desencantamento do mundo.

FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 725-744, set./out. 2008. 743

Tanto o primeiro autor (Durkheim) quanto o segundo (Weber) têm

contribuições relevantes à sociologia e as ciências sociais como um todo.

Seja nas pesquisas de cunho quantitativo ou qualitativo, seja pela forma

de explicar para depois compreender ou de primeiro compreender para

depois poder explicar, enfim, ambos possuem corroborações essenciais à

pesquisa sociológica ainda na atualidade.

O que acaba por reforçar que os esforços em realizar pesquisa (quantitativa

ou qualitativa) nas ciências sociais tem sua validade e viabilidade

quando sustentadas por abordagens teórico-metodológicas capazes de dar

alguma resposta a determinados fatos/fenômenos sociais. Ou seja,

metodologias capazes de a partir das particularidades das formas de tratamento

da relação sujeito/objeto das ciências sociais (sociologia, antropologia

e ciência política) sem perder de vista o princípio da refutação e,

ao mesmo tempo, validar hipóteses e conseqüentemente, conseguir explicar/

compreender determinados fenômenos/fatos sociais presentes em

determinados momentos históricos.

Notas

1 O fato social é distintivo de outros fenômenos presentes na natureza e nas predisposições psíquicas

dos indivíduos por se apresentarem como coisa exterior às consciências individuais e susceptíveis de

exercerem ação coercitiva sobre as mesmas.

2 O clima aqui é entendido em suas variações, calor e frio, por exemplo.

3 Correlação entre as taxas de suicídio e as variações na temperatura (calor e frio e suas respectivas intensidade

segundo um padrão quantitativo – categorização da temperatura em intervalos).

4 Os atos positivos estão associados às mortes provocadas de forma direta pelos indivíduos, como por

exemplo, o ato de um indivíduo disparar contra si mesmo um tiro de revolver ou apunhalar uma faca

em pontos vitais do seu corpo.

5 Os atos negativos por sua vez estão associados às mortes provocadas de forma indireta, tal como o

ato de um indivíduo que resolve deixar de comer ou, que numa eventualidade não queira sair da frente

de um automóvel que venha em sua direção, por exemplo.

6 Durkheim ainda vai caracterizar as causas sociais e os respectivos tipos sociais que o suicídio apresenta,

ou seja, o autor acaba por dividir o suicídio em três grandes agrupamentos, a saber: o suicídio

egoísta; o suicídio altruísta e o suicídio anômico.

7 Este parentesco estreito entre a vida e a estrutura, entre o órgão e a função, pode ser facilmente estabelecido

em sociologia porque entre estes dois termos extremos existe toda uma série de

intermediários imediatamente observáveis que mostra a ligação entre eles. A biologia não tem o mesmo

recurso. Mas é permitido acreditar que as induções da primeira destas ciências sobre este assunto são

aplicáveis à outra e que nos organismos, tal como nas sociedades, só existem diferenças de grau entre

estas duas de facto (DURKHEIM, 1995, p. 39).

8 Para o luteranismo, a profissão era como um ‘Dom’ especial de Deus. Neste aspecto, o calvinismo

se difere tanto do catolicismo quanto do luteranismo.

9 Weber não tenta com isto realizar uma inversão da esfera econômica para a religiosa como causa única.

O autor compreende que há várias causas intrinsecamente ligadas a evolução do capitalismo, porém, sua

pesquisa se preocupa em compreender a correlação da ética protestante para o espírito do capitalismo.

744 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 18, n. 9/10, p. 725-744, set./out. 2008.

Referências

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DURKHEIM, E. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Abril Cultural, 1983a.

DURKHEIM, E. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Abril Cultural, 1983b.

DURKHEIM, E. Sociologia e filosofia. São Paulo: Ícone, 1994.

DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. Lisboa: Presença, 1995.

DURKHEIM, E. O suicídio: estudo sociológico. Lisboa: Presença, 1996.

FREUND, J. Sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.

GIDDENS, A. Capitalismo e moderna teoria social. Lisboa: Presença, 1994.

GIDDENS, A. Política, sociologia e teoria social: encontros com o pensamento social clássico e contemporâneo.

São Paulo: Edunesp, 1998.

WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 2000.

WEBER, M. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Ed. da UnB,

1994.

Abstract: Max Weber and Émile Durkheim are two of the most important

classic authors of the social sciences. The influence of their respective theories

and methodological approaches are still noticed in many authors now. Here

we will present preliminarily the authors’ contributions for the qualitative

and quantitative researches, for such we talked about the qualitative research

of Weber in the work the ‘Protestant ethics and the spirit of the capitalism’

and the quantitative research of Durkheim on ‘Suicide: I study sociological’.

Key words: Max Weber, Émile Durkheim, protestant ethics, suicide,

researches qualitative and quantitative research

ALESSANDRO ANDRÉ LEME


Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Pós-doutorando no IFCH/Unicamp. Pesquisador e professor

colaborador no FCH/Unicamp. Sociólogo e cientista político.

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