quarta-feira, 24 de março de 2010

Brave heart - William Wallace - Coração Valente: O Filme

A história é baseada nas lendas que envolvem o personagem histórico William Wallace, que organizou a resistência ao rei da Inglaterra, Eduardo I, no século XVIII. Principalmente pelas majestosas cenas de batalha, com milhares de figurantes, Mel Gibson ganhou o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Diretor. A produção também conquistou Oscars nas categorias; Melhor Filme, Maquiagem e Efeitos Sonoros. Foi ainda indicada em outras 5 categorias: Melhor Figurino, Melhor Trilha Sonora, Melhor Som, Melhor Montagem e Melhor Roteiro Original. Mel Gibson contracena com Sophie Marceau (princesa Isabelle) e a belíssima Catherine MacCormack (Murron), sua mulher, assassinada logo no início do filme.
Os cinco Oscars, o reconhecimento do público e os aplausos da crítica pelo conjunto do filme são mais que justificáveis. Coração Valente (Braveheart) foi produzido em 1995, transita entre meio ficção, meio fato e possui todos os elementos envolventes necessários a um bom filme. Contudo, mesmo com quase três horas de duração (177 minutos), roteiro, diálogos, figurino, fotografia, ambientação, sonoplastia excelentes, isso são até componentes secundários diante das mensagens que o filme carrega. Entre elas, alguns conceitos: a coragem, a fé, o amor, o simbolismo. A perseverança nos propósitos é destaque especial. Afinal, a Escócia foi liberta somente depois de passados 300 anos, graças àquela primeira resistência.
Em meio a perseguições e traições, William Wallace (Mel Gibson) recebeu a missão de liderar seu povo nessa luta. Mas, não sem antes ressaltar o verdadeiro caráter da nobreza. Se buscarmos em Robin Wood, outra superprodução cinematográfica recente, a personagem principal chega a verbalizar esse caráter. Deserdado, porém, de linhagem nobre, numa das cenas, Robin Wood diz a Lady Mary que a verdadeira nobreza está nas atitudes, na conduta, na postura e não somente em razão de um título ostentado por consangüinidade ou por outros fatores. Quis dizer a personagem que a expressão sim, é meritória, a estampa, não. A velha história do ter e do ser.
William Wallace de Coração Valente, camponês polido e de atitudes nobres por influência de seu tio, que o criou após o falecimento do pai, também demonstrou o sentido da nobreza. A mesquinhez esteve longe dele até em seus últimos suspiros. Recusou-se a se suicidar. Poderia corresponder ao amor que a princesa tinha por ele, mas não. Recusou-se à estampa. Diante da tortura física extrema, voltou a gritar pela liberdade que sempre lutou. Se acreditasse que de nada adiantaria o seu grito, jamais o teria bradado. Ele sabia que outros se espelhariam em seu exemplo e ainda continuariam lutando por um Escócia livre.
A habilidade com que roteiristas, produtores e diretores lidam com o viés da imaterialidade é flagrante. O elemento extrafísico aparece em inúmeras outras produções. William Wallace também teve uma visão final, antes de despedir-se do mundo físico. Foi com a responsabilidade que lhe foi imposta e consciente de seu papel como líder de um povo que William vislumbrou sua amada, assassinada há algum tempo por soldados do império britânico, logo no início de sua luta. Mesmo que a intenção fosse a de demonstrar que tenha sido fruto da perturbação diante da tortura, a inclusão desse ingrediente é motivo para reflexão. Era como se ela o aguardasse para a entrada naquele outro mundo. E feliz por isso. Antes disso, uma outra cena mostra a visão de seu pai, já falecido falando com ele.
Quando finalmente pereceu, William deixou cair de sua mão o pequeno pedaço de pano que estava sendo bordado por sua mulher quando ela morreu. Ele o guardara consigo desde então. Simbolizava o amor que tinha e continuou tendo por ela. A partir dali, o simples pedaço de pano bordado ganhou expressão coletiva. Foi inundado pelo seu espírito. Fez-se expressão sua. Passou a ser a representação dos seus valores, do seu desprendimento, da sua valentia...do sonho de William. Não era apenas ou mais um pedaço de pano bordado, não era somente um artefato do "plano físico", mas a representação memorial de um ser singular que viveu, se fez povo e contribuiu para uma causa nobre. Morreu nobremente, assim como viveu.
Depois de sua morte, os ossos de William continuariam a se misturar com a terra. Seus restos mortais não tinham a conotação que ele deu e mais tarde, outros deram ao pano bordado. Além disso, seu filho se desenvolvia no ventre da futura rainha da Inglaterra. O filho seria o fruto da carne, porém, o pano bordado era muito mais do que a carne de sua carne. Era o símbolo de sua "vida" (material) e de sua "causa", de seu "ideal", de seu "sonho" (imaterial). Era o símbolo do que ainda não havia se concretizado fisicamente. Ainda estava no mundo das idéias. Ainda era utopia.

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