quinta-feira, 10 de junho de 2010

Blues na fronteira

Blues na fronteira
Felipe Cazaux: um dos nomes mais destacados da cena blueseira do Estado lança hoje "Good days have come"

NATALIA KATAOKA 10/6/2010


O guitarrista Felipe Cazaux caminha em direção ao rock em seu segundo álbum solo. "Good days have come" tem produção de Regis Damasceno (Cidadão Instigado)

Ainda que seja incorreto nomear um fonte única de onde teria se originado o rock, é ponto pacífico entre os conhecedores que, dos gêneros anteriores, que mais lhe cedeu elementos foi o blues. Boa parte das bandas de rock inglesas surgidas nos anos 60 (o que vai dos Rolling Stones ao Led Zeppelin, passando por Cream e Jethro Tull) foi formada por garotos que queria tocar blues e que, a ousadia adolescente, lançou ao desafio de cultivar um novo e amaldiçoado ritmo.

Desse rock que queria ser blues saíram alguns dos momentos mais memoráveis do gênero. A fronteira do blues e do rock tornou-se um campo sagrado, que exigia firmeza de quem por ali se aventurasse, com promessa de delícias ao longo da permanência. Eis uma imagem que pode servir de comentário a "Good days have come", segundo álbum solo do guitarrista Felipe Cazaux, um dos principais nomes da cena de blues local.

O bluesman, paulista radicado no Ceará, tem outros dois discos: "Looking for Trouble?!" (2004, independente), a estreia, ainda com a Double Blues Band; e "Help the Dog!" (2007, Blues Time Records), primeiro solo. Entre este e "Good days have come", o guitarrista cresceu na cena, deu melhor acabamento a sua identidade musical e tocou com músicos de destaque do blues e do metal(!).

Com a Double Blues Band, Cazaux já tocava um blues que flertava com o rock, sobretudo no inusitado peso extra das guitarras no disco da banda. Solo, parece ter minimizado elementos mais estritamente blueseiros. No segundo álbum, a guitarra se aproxima do ponto preciso onde blues e rock tornam-se indistinguíveis - e, aí, abre-se o caminho para sonoridades mais pop, que tiram o CD de um possível gueto blueseiro. O resultado deste deslocamento é o melhor álbum de Felipe Cazaux.

Fúria e lágrimas
O lado melancólico do blues (que, aliás, é aquele que dá o nome ao gênero) é colocado de lado em "Good days have come". Há, em seu lugar, certa fúria. Esta se faz presente já nos primeiros acordes de guitarra da faixa-título, a mesma que batiza o disco. Depois da abertura da bateria, a guitarra de Cazaux explode encorpada e crua. Desde já, uma boa opção para abrir os shows do músico.

"The blues never lie" segue vertende semelhante. Hardblues, com destaque a um solo que remete aos bons serviços prestados pelo esquecido Mick Taylor na melhor fase dos Rolling Stones. Em "Never forget", com levada blues e refrão grudento, destaque para a gaitade Vasco Faé.

Canção que certamente ficará é a tristíssima "Made of gold", que na mixagem deu à voz de Cazaux algo de fantasmagórico, como se gravada há décadas. É a melhor canção de um disco de média já elevada. A outra faixa melancólica é "Bad dreams", um bom blues, mais tradicional, mas sem grande destaque entre as demais músicas do álbum. Ainda merecem destaque "Then I´ll do", que parece roubada do repertório do Grateful Dead, e "Hei Mr.", com seu paredão de guitarra e baixo distorcidos.

BLUES
" Good days have come"
Felipe Cazaux
R$ 10,00
10 faixas
2010
Blues Times Records

Lançamento às 19 horas, no Mercado dos Pinhões (Praça Visconde de Pelotas - Centro). Gratuito. 20% do valor arrecadado com a venda dos discos será doado à ONG São Lázaro, entidade de proteção aos animais). Contato: (85) 3105.1490

Fonte: DELLANO RIOS - REPÓRTER

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